O dia começou nublado, mas com grandes possibilidades de raios de sol na atmosfera que pairava naquele domingo tranqüilo. O belo da vida se manifestou em formas variadas de sons. Crianças correndo, pássaros cantando e, o barulho do silêncio, que aquietou meu coração e acalentou minha alma.
Levantei em um ímpeto de mau humor e como se tivesse ido a uma padaria que não tivesse pão, ou mesmo em uma pescaria sem ao menos pegar um peixe, pude saborear o sentimento de cansaço e a falta de humor que caia sobre mim.
Banhei-me mais rápido do que um cão faminto devora seu alimento, vesti-me e comecei a grande luta para carregar todos os apetrechos, malas, caixas, pastas e tudo necessário para a missão a qual fui designado.
Verificando as horas de cinco em cinco minutos, alta velocidade, mandando algumas mensagens de texto pelo celular, samba no último volume e o carro parecia deslizar sobre o asfalto quente debaixo daquele céu que acabara de dar um sinal que o sol estava chegando e era bem vindo.
No local combinado encontramos-nos e o sentimento estava em constante metamorfose. O casulo estava se abrindo e a borboleta do sorriso, desabrochava em meu coração. Estávamos em três pessoas que aderiam á filosofia do amor e do sorriso e rapidamente nos dirigimos á outro ponto combinado para que pudéssemos acompanhar aquelas pessoas que carregavam mantimentos, brinquedos e muita disposição para ajudar ao próximo.
Cada conversa era rica e algo especial existia naquelas pessoas, eram freqüentadores de um centro espírita no centro da cidade e tinham um coração voltado ao bem. Sempre que vejo pessoas boas como essas, me vem á mente a história do bom samaritano, onde o “próximo” era aquele que amava e ajuda as pessoas, independente de religião, credo, opinião, causa e qualquer coisa que possa ser um obstáculo para vermos, com olhos bons, através do mal, seja em forma de dor ou mesmo em forma de amor.
Finalmente nos dirigimos ao local onde a missão dada, seria cumprida! Chegamos à região pobre do Morumbi e estacionamos próximo a uma casa rosada. Fomos recebidos por uma senhora que tinha um brilho especial no olhar e esbanjava simpatia. Sabíamos que ali crianças com câncer eram acolhidas para que pudessem receber tratamento na cidade de São Paulo que possui centros especializados em suas doenças.
Entrando naquela casa simples, que fluía amor, nos deparamos com poucas crianças, mas uma em especial uma chamou minha atenção. Seu nome era Tricia, cabelos longos e macios, sorriso cintilante e especial, jeito carente e olha profundo, mas muito feliz.
Aos poucos fui entendendo porque estava ali. Deus tinha preparado cada momento para que pudéssemos conhecer aquela bela criança, que não aparentava mais do que dez anos de idade. Não entendi muito bem porque ela usava uma faixa em cada joelho e o real motivo pelo qual mancava ao andar, mas ela tinha um brilho especial. Demorei alguns segundos até perceber que algo lhe faltava, não era beleza ou um lindo sorriso que estava ausente, e sim seus ante braços e mãos. Uma situação inusitada era perceber que lhe faltavam algo que julgamos essencial. Mais espantado fiquei ao perceber que suas pernas eram próteses, notando que lhe faltavam as pernas e pés também.
Tricia era especial, tinha um brilho de Deus e um sorriso de céu, tinha uma alegria que poucos teriam em uma situação semelhante. Perguntava-me como o câncer havia se alastrado tão rapidamente, criando tantos prejuízos em seu corpinho frágil. Como um sorriso poderia significar tanto em meio á tragédias da vida.
Havia um brinquedo que Tricia se exibia e era magnífica sua condução. Uma bola de peso presa a um elástico e ele era rodava entre as pernas, amarrado ao seu pé direito, a bola era rodada e quando chegava no esquerdo, ela era obrigada a pular com a perna para conseguir com que tenha êxito no jogo e assim, a perna direita tinha que tomar impulso para que a bola não parasse. Confesso que tentei realizar os movimentos que a bela jovem fazia, mas fui surpreendido por minhas limitações. Tricia é um exemplo de vida e de superação e não é dependente em nada e faz tudo sozinha, segundo sua mãe.
Pude ver nessa bela criança a vida de uma forma diferente. Um jogo, onde a única regra era vencer, independente das armas que estiver em seu poder. Ao passar por esse local, senti-me afetado pela sua doçura e esse laço de afeto despertou em mim um amor pela vida e uma vontade de estar constantemente vencendo meus limites.
Certo que sua resposta, resolvi arriscar e em seu ouvido, sussurrei:
- Tricia, você gosta de palhaço?
Recebi como resposta uma melodia onde as notas musicais brincavam e interagiam entre si, transformando-se em uma bela canção, onde a letra era singular:
- Gosto! Mas eu gosto muito.
Aquela resposta encheu meu coração de alegria e pude sentir uma sensação de missão cumprida para aquela ocasião, pois as pessoas que me acompanhavam estavam nos bastidores, sofrendo a transfiguração da vida, tomando sobre si a alegria de servir e camuflando-se através de uma mascara que representava a imagem do belo em tons vermelho, sorrisos escancarados e roupas alegres.
Uma estrela cadente saltava dos olhos de Tricia, ao perceber a imagem de duas Palhaças, levando alegria em forma de Graça e graça e doçura em forma de sorrisos. Aquele brilho ofuscava qualquer tentativa de percepção.
Entre mágicas, fantoches e palhaços, conseguimos constatar o quanto fomos afetados de forma positiva, pois a menina dos olhos de Deus estava sorrindo como nunca. Uma criança, sem braços, pernas, mas que se dispôs a receber aquele amor do Ser que é o dono da vida!
“Guarda-me como à menina do olho; esconde-me debaixo da sombra das tuas asas.” (Salmos 17:8)
Renan Espíndola de Oliveira
http://projetosorrir.wordpress.com
17/03/2009
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